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sexta-feira, 7 de julho de 2017

A Denúncia


desenho crayon sobre cartão
A denúncia
Uma grande mesa com tampo de granito, que antes ficava na cozinha, agora era sua e estava bem instalada com uma confortável cadeira, onde ele se sentava todos os dias e despejava no teclado tudo que estava guardado em sua mente fértil. Uma poltrona que ganhara de seu filho num dia dos pais, e que já estava fazendo seu décimo aniversário, mas   sua cuidadosa esposa forrou-a com uma capa de um tecido grosso azul –marinho, almofadas de um azul mais claro e verde abacate, ficou parecendo nova em folha, dizia ele.
Seu olhar vagava pela janela, a paisagem que desfrutava da janela de seu escritório, era de um barranco cheio de flores silvestres, brancas, amarelas e vermelhas, mais atrás um muro alto escondia uma casa, da qual ele só via o telhado e ouvia as vozes, ora de homem, ora de crianças, ou feminina.
Aquela pequena visão despertava a curiosidade de Jaime que ficava imaginando como seriam e como viviam aquelas pessoas, tão barulhentas e na maioria os sons eram de brigas, choros e ameaças da voz masculina, eram cada dia mais frequentes, a ponto de atrapalharem sua concentração. Neste caso ele fechava a janela, colocava uma música clássica para tocar e tudo voltava ao normal.
Era segunda- feira quatro horas da tarde, Matilde, sua mulher, veio com o cafezinho que acabara de coar, e colocou na mesa para ele, sentou-se na poltrona e ficou ouvindo a música de Beethoven, enquanto ele concentrado, batucava no teclado talvez uma nova crônica ou outra história, a Ode to Joy já quase no fim, ambos saltaram de seus assentos, ao ouvirem o grito vindo da casa de trás do barranco, um grito de mulher, uma espécie de urro masculino, e logo depois um profundo silêncio. Jaime desligou o som, e ambos ficaram preocupados prestando atenção, mas nada mais se ouviu. Dia seguinte Jaime e Matilde saíram para caminhar, mas a intenção era passarem em frente à casa do barranco. Antes ele olhara o mapa do bairro localizou sua rua, e a que ficava justamente atrás do barranco, fez mentalmente o caminho que iriam percorrer e foram, era uma pequena travessa aladeirada com arvores, terrenos vazios e duas casas apenas uma bem afastada da outra. As duas completamente fechadas ninguém à vista, nem uma criança, nem um cão, ninguém.
-Deve ser a hora, comentou com Matilde, logo mais à tardinha voltamos, essa hora criança está na escola e adultos em seus trabalhos. –
- Acho bom deixarmos isso pra lá, se tivesse acontecido algo grave, escutaríamos a ambulância, ou a polícia com suas sirenes. E o que podemos fazer, não conhecemos as pessoas que moram aqui?
- Se você não quiser não vem, eu virei, quero descobrir o que houve. Deve ter sido algo grave, só nós ouvimos, por causa da distância da outra casa desta rua, que até parece desabitada.
Matilde desistiu, mas Jaime não, todas as tardes vestia seu traje de ginástica, e lá ia ele, sempre o mesmo deserto, rua vazia, um mosqueiro que a cada ia era maior por aquelas bandas, e um mau cheiro de dar nojo.
Naquela manhã Jaime saiu com sua roupa de caminhada, e umas luvas de procedimento, que sua mulher usava na limpeza da casa e as comprava em caixas, escondeu um par nos bolsos, mas sua intenção era outra que não a de caminhar, foi até a casa atrás do barranco, forçou o pequeno portão, pegou uns tijolos que estavam empilhados no quintal levou-os até a janela do que ele achava ser a cozinha da casa e espiou para dentro, o mal cheiro vinha de lá, mas não conseguiu, ver nada de suspeito, apenas moscas, forçou a porta mas ela não se mexeu. O mal cheiro era insuportável por ali. Meio frustrado com sua investigação falha, guardou as luvas, que pretendia jogar fora bem longe dali tomou uma decisão.
Foi até a um telefone público, ligou para a delegacia e deu uma falsa denúncia.
_Preciso que venham na rua tal, número tal, houve um assassinato lá, e a pessoa está trancada morta, dentro da casa, como eu sei? Eu vi, passei por lá e vi, os urubus já estão rondando a casa e as moscas. Não, não é trote. Tá meu nome é João da Silva, onde moro? Perto dali, só estava caminhando por ali, meu endereço? Rua tal, número tal. Sim vou estar lá esperando a polícia, obrigado.
Jaime foi para casa, e correu para seu escritório, abriu a janela de par a par e ficou prestando atenção aos sons, não demorou escutou a sirene da polícia, algumas vozes, algumas marteladas, uns impropérios, palavrões variados, momentos depois o corpo de bombeiros, as sirenes se foram a tarde caiu, a noite chegou e Jaime, de cara colada na TV, esperando alguma nota nada, na manhã seguinte, correu ao jornaleiro, comprou o jornal, e finalmente lá estava a  notícia: “ Homem  encontrado morto, já em estado de decomposição em casa abandonada, na rua tal, número tal, sem identificação, até o momento...
--Como homem! Quem gritou foi a mulher! Matilde, Matilde olhe só a notícia da casa do barranco...—
Jaime não soube de mais nada a respeito do crime, muitos dias e semanas depois, a conclusão para sua incógnita surgiu num noticiário da TV.
Mulher matou amante com duas facadas, abandonou o corpo, trancou a casa e fugiu com os filhos, alega que cansou de tantos mal tratos e aos filhos, o corpo do homem, já em estado avançado de deterioração, foi encontrado graças a uma denúncia anônima por causa do mal cheiro, moscas e urubus...
Matilde olhou para o marido e com um único comentário falou com olhar de aprovação a denúncia anônima tem o nome de Jaime.
Ele sorriu, e disse daí vai sair um romance, minha querida. Desligaram a TV e foram dormir abraçadinhos.
Fim                                                                                                                  Léah













16 comentários:

  1. É muito raro os vizinhos denunciarem os casos de violência doméstica em tempo útil. Talvez pelo ditado anacrónico de que "entre marido e mulher não metas a colher"...
    Uma excelente crónica, gostei imenso.
    Léah, um bom fim de semana.
    Beijo.

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  2. Um excelente texto. Infeliz~mente muitas vezes os casos de violência doméstica acabam em morte. E apesar de na maior parte das vezes, a vítima ser a mulher, às vezes acontece o contrário. Umas vezes porque a agressora é a mulher, outras sendo a vítima, consegue num momento de cansaço e revolta passar de vítima a agressora.
    Um abraço e bom fim de semana

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  3. Muy entretenida tu historia hasta el final Léah.
    La violencia de genero se afinca en cualquier lugar.
    Me gustó mucho leerte.
    Un abrazo.

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  4. Ah! se me olvidó. Preciosa la pintura en la que veo te has inspirado.

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  5. Nossa, amiga, você conseguiu prender o leitor até o final, na base do suspense! Conto 'tri', gostei muito. Ela matou e se mandou com os filhos... acontece, sim! Gostei porque você foi 'comendo pelas beiradas', num ritmo muito bom!
    Essas histórias estão muito presentes aqui no Brasil...
    Parabéns, Léah!!Bela pintura ilustrando.
    Beijo!

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  6. Hoje em dia precisa o mal cheiro anunciar,
    para alguém querer se meter e denunciar.
    Abçs.

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  7. La traducción no es muy buena y no puedo quizás captar todo...
    El trabajo con el gato negro me encanta.

    Besitos

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  8. Olá Léah.
    Gostei do seu "desenho crayon sobre cartão" abrindo a postagem do seu belo (e trágico) conto, como esse final tão apropriado para esse gênero ficcional. Um susto para o Jaime, quando soube que a mulher (não a mulher dele, Matilde) matou a facadas a amante. Excelente. Parabéns.
    Um abraço.
    Pedro

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  9. Muito bom este teu conto, Leah! Infelizmente a violência doméstica é muita em todo o lado e os vizinhos muitas vezes apercebem-se, mas não avisam a policia e depois acontece o pior. Gostei muito do teu quadro também. Hoje tivemos uma noticia muito boa, pelo menos a mim agradou-me MUITO!
    Beijinhos, amiga,
    Emilia

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  10. Muito bonito este conto, conseguiu que eu ficasse pregada no telemóvel, para ver o fim que era previsível.
    Parabéns.

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  11. Un dipinto molto romantico e poetico , davvero bellissimo ! Abbraccio.

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  12. Belíssima a pintura e o texto.
    Beijinhos

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  13. Este comentário foi removido pelo autor.

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  14. O conto é trágico, mas infelizmente existem casos assim! A sua pintura é linda, colorida e com ar campestre. Bjs

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  15. Já comentei, mas esqueci-me de referir que gostei muito do desenho.
    Léah, um bom fim de semana.
    Beijo.

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  16. Um história fantástica, que nos prende a atenção até ao fim... e acabou produzindo um romance, até para o seu protagonista...
    Imaginação e talento, no seu melhor! Tanto em palavras... como no desenho, que as acompanham... Belíssimo trabalho, Léah!
    Beijinho
    Ana

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